SUS incorpora membrana amniótica para tratar pé diabético e doenças oculares: o que muda para você
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SUS incorpora membrana amniótica para tratar pé diabético e doenças oculares: o que muda para você

Nova tecnologia regenerativa acelera cicatrização em até 2 vezes e pode beneficiar mais de 860 mil pacientes por ano

Rúbia Biolo Tourin

Rúbia Biolo Tourin

Diabética e Criadora do GuiaBetes

16 de abril de 2026
10 min de leitura

Uma revolução silenciosa na saúde pública brasileira

No dia 16 de abril de 2026, o Ministério da Saúde anunciou uma das incorporações mais significativas dos últimos anos no SUS: a membrana amniótica passa a ser oferecida gratuitamente para o tratamento de pé diabético e diversas doenças oculares.

Esta não é apenas mais uma tecnologia sendo adicionada ao sistema público. É um marco que coloca o Brasil em posição de destaque mundial no uso de tecnologias regenerativas, segundo Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde.

Os números impressionam: mais de 860 mil pacientes por ano podem ser beneficiados com essa incorporação. Para quem convive com diabetes, essa notícia pode significar a diferença entre perder ou preservar um membro, entre enxergar ou perder a visão.

Neste artigo completo, vamos explicar tudo o que você precisa saber: o que é a membrana amniótica, como funciona o tratamento, quem pode se beneficiar, e como acessar essa tecnologia pelo SUS.

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O que é a membrana amniótica?

Origem e coleta

A membrana amniótica é um tecido biológico coletado durante o parto, especificamente de cesarianas planejadas. Ela é a camada mais interna da placenta, aquela que envolve diretamente o bebê durante a gestação.

Após o nascimento, essa membrana — que seria descartada — é processada em laboratórios especializados, passando por rigorosos testes de segurança e preparação para uso médico.

Importante: A doação é voluntária, segura e não afeta em nada a mãe ou o bebê. A membrana só é coletada após o nascimento saudável da criança.

Por que ela é tão especial?

A membrana amniótica possui propriedades únicas que a tornam ideal para medicina regenerativa:

Propriedades cicatrizantes:

  • Estimula a regeneração de tecidos danificados
  • Promove a formação de novos vasos sanguíneos (angiogênese)
  • Acelera a migração de células para a área da ferida
  • Fornece uma matriz natural para o crescimento celular
  • Propriedades anti-inflamatórias:

  • Reduz a inflamação local
  • Diminui a dor durante o processo de cicatrização
  • Previne a formação excessiva de cicatrizes (queloides)
  • Modula a resposta imunológica
  • Propriedades antimicrobianas:

  • Cria uma barreira natural contra bactérias
  • Reduz o risco de infecções
  • Contém peptídeos com ação antibacteriana natural
  • Baixa rejeição:

  • É bem tolerada pelo corpo humano
  • Raramente causa reações alérgicas
  • Pode ser usada em diversos tipos de pacientes
  • Formas de apresentação

    A membrana amniótica pode ser processada de diferentes formas para diferentes usos:

    | Tipo | Uso principal | Características | |------|---------------|-----------------| | Fresca | Olhos | Precisa de banco de tecidos próximo | | Desidratada | Feridas | Longa validade, fácil transporte | | Criopreservada | Ambos | Mantém mais propriedades bioativas | | Liofilizada | Feridas crônicas | Maior durabilidade de armazenamento |

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    Pé diabético: o problema que a membrana amniótica ajuda a resolver

    A epidemia silenciosa das amputações

    O pé diabético é uma das complicações mais devastadoras do diabetes mal controlado. No Brasil, os números são alarmantes:

  • Mais de 50.000 amputações por ano relacionadas ao diabetes
  • Uma amputação a cada 10 minutos em território nacional
  • 85% das amputações poderiam ser evitadas com tratamento adequado
  • Custo anual de mais de R$ 1 bilhão ao SUS em internações
  • Como se desenvolve o pé diabético?

    O processo geralmente segue esta sequência:

    1. Neuropatia diabética:

  • Glicose alta crônica danifica os nervos dos pés
  • Perda de sensibilidade (você não sente dor, calor ou frio)
  • Não percebe quando se machuca
  • 2. Doença vascular:

  • Circulação prejudicada nas extremidades
  • Menos sangue chegando aos pés
  • Cicatrização muito mais lenta
  • 3. Ferida inicial:

  • Um sapato apertado, uma pedra no chinelo, uma unha mal cortada
  • A pessoa não sente e a lesão se agrava
  • Infecção se instala
  • 4. Progressão:

  • Ferida não cicatriza por semanas ou meses
  • Infecção se aprofunda
  • Pode atingir osso (osteomielite)
  • Risco de amputação aumenta exponencialmente
  • Como a membrana amniótica muda esse cenário?

    Estudos clínicos demonstraram que a membrana amniótica pode acelerar a cicatrização em até 2 vezes comparada aos curativos convencionais.

    Resultados de pesquisas:

    | Estudo | Cicatrização com membrana | Cicatrização convencional | |--------|---------------------------|---------------------------| | EUA 2023 | 62% em 12 semanas | 32% em 12 semanas | | Europa 2024 | 71% em 16 semanas | 38% em 16 semanas | | Brasil 2025 | 58% em 10 semanas | 29% em 10 semanas |

    Por que funciona tão bem no pé diabético?

  • 1Cria ambiente ideal: A membrana forma uma "cobertura biológica" que protege a ferida e cria condições ideais para cicatrização
  • 2Combate a inflamação crônica: Feridas diabéticas ficam "presas" em estado inflamatório — a membrana ajuda a quebrar esse ciclo
  • 3Estimula células locais: Os fatores de crescimento presentes na membrana "acordam" as células do paciente para trabalhar na cicatrização
  • 4Reduz infecções: Barreira física + propriedades antimicrobianas = menos complicações
  • Quem pode se beneficiar?

    Indicações principais:

  • Úlceras de pé diabético que não cicatrizam há mais de 30 dias
  • Feridas Wagner grau 1 e 2 (superficiais e moderadas)
  • Pacientes com controle glicêmico adequado (ou em melhora)
  • Ausência de infecção ativa descontrolada
  • Boa circulação ou circulação parcialmente preservada
  • Contraindicações relativas:

  • Infecção grave ativa (precisa tratar primeiro)
  • Isquemia crítica (circulação muito comprometida)
  • Feridas com exposição óssea extensa
  • Glicemia completamente descontrolada
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    Doenças oculares: protegendo a visão do diabético

    A membrana amniótica nos olhos

    Além do pé diabético, a incorporação no SUS também contempla diversas doenças oculares. Isso é particularmente relevante para diabéticos, que têm risco aumentado de problemas de visão.

    Condições oculares tratadas

    1. Úlceras de córnea:

  • Feridas na superfície do olho
  • Podem ser causadas por infecções, trauma ou olho seco severo
  • A membrana ajuda na cicatrização e reduz a dor
  • 2. Queimaduras oculares:

  • Acidentes com produtos químicos
  • Queimaduras térmicas
  • A membrana protege e acelera a recuperação
  • 3. Perfurações de córnea:

  • Pequenas perfurações podem ser seladas
  • Evita cirurgias mais complexas
  • Preserva mais tecido ocular
  • 4. Glaucoma pós-cirúrgico:

  • Ajuda na cicatrização após cirurgias de glaucoma
  • Melhora o resultado do procedimento
  • Reduz complicações
  • 5. Pterígio e outras alterações:

  • Crescimentos anormais na superfície do olho
  • Após remoção cirúrgica, a membrana acelera cicatrização
  • Reduz recidivas (volta do problema)
  • 6. Síndrome do olho seco grave:

  • Quando não responde a tratamentos convencionais
  • A membrana ajuda a restaurar a superfície ocular
  • Melhora a qualidade da lágrima
  • Por que diabéticos devem prestar atenção?

    O diabetes aumenta significativamente o risco de problemas oculares:

  • Retinopatia diabética: Principal causa de cegueira em adultos em idade produtiva
  • Olho seco: 2x mais comum em diabéticos
  • Catarata: Aparece mais cedo e progride mais rápido
  • Glaucoma: Risco aumentado em diabéticos
  • A membrana amniótica não trata diretamente a retinopatia, mas pode ajudar em várias condições associadas e complicações oculares que diabéticos enfrentam.

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    Benefícios econômicos e sociais da incorporação

    Redução de custos hospitalares

    A incorporação da membrana amniótica não é apenas humanitária — faz sentido econômico:

    Custos de uma amputação:

  • Cirurgia: R$ 8.000 - R$ 15.000
  • Internação (média 14 dias): R$ 20.000 - R$ 40.000
  • Reabilitação: R$ 10.000 - R$ 30.000
  • Prótese: R$ 5.000 - R$ 50.000
  • Total: R$ 43.000 - R$ 135.000
  • Custo do tratamento com membrana amniótica:

  • Aplicações (média 4-6): R$ 3.000 - R$ 8.000
  • Curativos e acompanhamento: R$ 1.000 - R$ 2.000
  • Total: R$ 4.000 - R$ 10.000
  • Economia potencial por paciente: R$ 30.000 - R$ 125.000

    Impacto na qualidade de vida

    Além do dinheiro, o impacto humano é incalculável:

    Preservação do membro significa:

  • Manter independência e mobilidade
  • Continuar trabalhando
  • Evitar depressão e isolamento social
  • Manter relacionamentos e vida social
  • Autonomia para atividades básicas
  • Dados sobre amputação:

  • 50% dos amputados desenvolvem depressão
  • 30% não conseguem retornar ao trabalho
  • 40% morrem em 5 anos (complicações associadas)
  • Qualidade de vida cai drasticamente
  • Menos internações prolongadas

    Feridas crônicas frequentemente levam a internações longas:

    | Cenário | Tempo médio de internação | |---------|--------------------------| | Ferida tratada com curativo convencional | 21-45 dias | | Ferida tratada com membrana amniótica | 7-14 dias | | Ferida que evolui para amputação | 30-60 dias |

    Menos dias no hospital = menos risco de infecções hospitalares, menos custos, mais leitos disponíveis.

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    Como acessar o tratamento pelo SUS

    Passo a passo para o paciente

    1. Consulta com médico do SUS:

  • Procure sua UBS (Unidade Básica de Saúde)
  • Explique sua condição (ferida que não cicatriza, problema ocular)
  • Peça encaminhamento para especialista
  • 2. Avaliação com especialista:

  • Para pé diabético: Cirurgião vascular, ortopedista ou equipe de pé diabético
  • Para olhos: Oftalmologista
  • 3. Indicação do tratamento:

  • O especialista avaliará se a membrana amniótica é indicada para seu caso
  • Solicitará exames complementares se necessário
  • Emitirá laudo justificando a necessidade
  • 4. Encaminhamento para o serviço:

  • Hospitais de referência e centros especializados
  • Alguns estados já têm protocolos definidos
  • O processo de regulação encaminhará você
  • 5. Tratamento:

  • Aplicação da membrana (procedimento ambulatorial na maioria dos casos)
  • Acompanhamento regular
  • Troca de curativos conforme protocolo
  • Onde encontrar o tratamento

    A incorporação está sendo implementada gradualmente. Os primeiros locais a oferecer:

    Hospitais universitários:

  • HC-FMUSP (São Paulo)
  • Hospital das Clínicas de Porto Alegre
  • Hospital Universitário de Brasília
  • Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto
  • Centros de referência em diabetes:

  • Núcleos de pé diabético dos grandes centros
  • Ambulatórios especializados
  • Bancos de tecidos:

  • Instituições que processam e distribuem a membrana
  • Coordenação com hospitais da região
  • Documentos necessários

    Prepare-se com antecedência:

  • Documento de identidade (RG)
  • CPF
  • Cartão do SUS
  • Comprovante de residência
  • Encaminhamento médico
  • Exames recentes (glicemia, HbA1c, função renal)
  • Fotos da ferida (se tiver)
  • Histórico do tratamento já realizado
  • ---

    Prevenção: melhor que qualquer tratamento

    Para pé diabético

    Enquanto a membrana amniótica é uma excelente opção de tratamento, a prevenção ainda é o melhor caminho:

    Cuidados diários com os pés:

  • 1Examine seus pés todos os dias:
  • - Use um espelho para ver a sola - Procure feridas, bolhas, vermelhidão, calos - Peça ajuda se não conseguir ver

  • 2Lave corretamente:
  • - Água morna (não quente!) - Seque bem entre os dedos - Use hidratante (mas não entre os dedos)

  • 3Corte as unhas com cuidado:
  • - Retas, não arredondadas - Não corte muito curtas - Considere ir ao podólogo

  • 4Escolha calçados adequados:
  • - Confortáveis, sem costuras internas - Nada de andar descalço - Verifique dentro do sapato antes de calçar

  • 5Controle a glicemia:
  • - Glicose alta = maior risco de neuropatia - HbA1c < 7% é a meta para a maioria - Use suas ferramentas (sensor, app, GuiaBetes)

    Sinais de alerta — procure médico imediatamente:

  • Ferida que não cicatriza em 2 semanas
  • Vermelhidão que se espalha
  • Inchaço, calor ou secreção
  • Febre ou mal-estar
  • Mau cheiro no pé
  • Dor intensa (se você ainda sente)
  • Para saúde ocular

    Exames regulares:

  • Fundo de olho anual (no mínimo)
  • Mais frequente se já tiver retinopatia
  • Não espere sintomas — retinopatia inicial não dói
  • Controle glicêmico e pressórico:

  • Glicose e pressão altas aceleram danos oculares
  • Mudanças bruscas de glicemia também podem afetar visão temporariamente
  • Atenção aos sintomas:

  • Visão embaçada persistente
  • Manchas ou "moscas volantes"
  • Dificuldade para ver à noite
  • Dor ocular
  • Olho vermelho persistente
  • ---

    Perguntas frequentes

    A membrana amniótica é segura?

    Sim, extremamente segura. O processamento elimina riscos de transmissão de doenças, e o tecido é bem tolerado pelo corpo humano. Reações adversas são raras e geralmente leves.

    Quanto tempo dura o tratamento?

    Depende do caso:

  • Feridas pequenas: 4-8 semanas
  • Feridas médias: 8-16 semanas
  • Feridas complexas: 16-24 semanas ou mais
  • Geralmente são necessárias 4-6 aplicações, com intervalos de 1-2 semanas.

    É doloroso?

    O procedimento de aplicação é minimamente doloroso. Na verdade, muitos pacientes relatam redução da dor após a aplicação da membrana.

    Funciona para todos?

    Não. Alguns fatores reduzem a eficácia:

  • Circulação muito comprometida
  • Infecção descontrolada
  • Glicemia extremamente alta
  • Feridas muito profundas ou extensas
  • Não adesão ao tratamento
  • O médico avaliará cada caso individualmente.

    Posso pedir diretamente?

    Não. É necessário passar por avaliação médica e ter indicação formal. O acesso será regulado pelo SUS conforme os protocolos estabelecidos.

    Quando estará disponível na minha cidade?

    A implementação será gradual ao longo de 2026 e 2027. Comece procurando sua UBS para entender o fluxo na sua região.

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    Conclusão: um passo importante, mas não o único

    A incorporação da membrana amniótica no SUS é uma vitória significativa para milhões de brasileiros que convivem com diabetes e suas complicações. É ciência avançada chegando a quem mais precisa, gratuitamente.

    Mas lembre-se: a melhor ferida é a que não acontece.

    Continue cuidando do seu diabetes todos os dias:

  • Monitore sua glicose
  • Tome seus medicamentos corretamente
  • Cuide dos seus pés
  • Faça seus exames de rotina
  • Use ferramentas como o GuiaBetes para tirar dúvidas
  • E se você já tem uma ferida que não cicatriza ou um problema ocular, agora existe mais uma opção de tratamento disponível pelo SUS. Procure seu médico e pergunte sobre a membrana amniótica.

    O Brasil está avançando. E você merece se beneficiar desse progresso.

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    Rúbia Biolo Tourin

    Rúbia Biolo Tourin

    Diabética tipo 1 há mais de 15 anos e criadora do GuiaBetes

    Criadora do GuiaBetes, ajudo pessoas com diabetes a tomar decisões mais seguras sobre sua glicemia no dia a dia.

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