COVID-19 pode causar diabetes? Entenda a relação entre coronavírus e glicemia
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COVID-19 pode causar diabetes? Entenda a relação entre coronavírus e glicemia

Estudos mostram que o vírus pode desencadear diabetes em pessoas saudáveis e agravar quadros pré-existentes

Rúbia Biolo Tourin

Rúbia Biolo Tourin

Diabética e Criadora do GuiaBetes

17 de abril de 2026
12 min de leitura

Uma descoberta que mudou a forma como entendemos o vírus

Quando a pandemia de COVID-19 começou, médicos e pesquisadores focaram inicialmente nos pulmões — afinal, era uma doença respiratória. Mas logo ficou claro que o SARS-CoV-2 não se limitava ao sistema respiratório.

Uma das descobertas mais preocupantes: o vírus pode afetar diretamente o pâncreas e o metabolismo da glicose, potencialmente desencadeando diabetes em pessoas saudáveis e agravando significativamente quadros pré-existentes.

Neste artigo, vamos explorar em profundidade o que a ciência descobriu sobre essa relação, como o vírus ataca os órgãos responsáveis pelo controle glicêmico, e o que você pode fazer para se proteger.

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A relação bidirecional: diabetes e COVID-19

A conexão entre diabetes e COVID-19 funciona em duas direções, criando um ciclo preocupante:

Direção 1: Diabéticos têm maior risco de COVID-19 grave

Desde o início da pandemia, pessoas com diabetes foram classificadas como grupo de risco. Os motivos são múltiplos:

Comprometimento imunológico: Segundo o Dr. Rodrigo Moreira, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), "a hiperglicemia compromete a resposta imune". Isso significa que:

  • O corpo demora mais para reconhecer o invasor
  • A produção de anticorpos é menos eficiente
  • As células de defesa têm sua função prejudicada
  • A resposta inflamatória pode ser exagerada e danosa
  • Inflamação crônica: Diabéticos já vivem com um organismo naturalmente mais inflamado. Quando o COVID-19 provoca seu próprio processo inflamatório, os efeitos se somam e se potencializam.

    Comorbidades associadas: Muitos diabéticos também têm:

  • Hipertensão arterial
  • Obesidade
  • Doenças cardiovasculares
  • Doença renal crônica
  • Cada uma dessas condições aumenta independentemente o risco de COVID-19 grave.

    Direção 2: COVID-19 pode desencadear ou agravar diabetes

    Esta foi a descoberta surpreendente que mobilizou pesquisadores de todo o mundo:

    Casos novos de diabetes: Médicos começaram a relatar pacientes que desenvolveram diabetes durante ou logo após a infecção por COVID-19, sem histórico prévio da doença.

    Agravamento de casos existentes: Diabéticos bem controlados viram suas glicemias dispararem durante a infecção, muitas vezes de forma inexplicável pelos padrões habituais.

    Necessidade de insulina: Pacientes que controlavam o diabetes apenas com medicação oral passaram a precisar de insulina — às vezes em doses muito altas.

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    Como o vírus ataca o metabolismo da glicose

    O professor Francesco Rubino, especialista em Cirurgia Metabólica do King's College London (Reino Unido), liderou estudos que explicam os mecanismos biológicos dessa conexão.

    O papel do receptor ACE-2

    O SARS-CoV-2 precisa de uma "porta de entrada" para infectar as células humanas. Essa porta é o receptor ACE-2 (Enzima Conversora de Angiotensina 2).

    O problema? O ACE-2 está presente em abundância exatamente nos órgãos responsáveis pelo metabolismo da glicose:

    Pâncreas:

  • O pâncreas produz insulina nas células beta
  • Se o vírus infecta e danifica essas células, a produção de insulina cai
  • Resultado: hiperglicemia e, potencialmente, diabetes
  • Fígado:

  • O fígado regula a liberação de glicose na corrente sanguínea
  • Infecção hepática pode causar liberação descontrolada de glicose
  • Também prejudica a resposta à insulina
  • Intestino:

  • O intestino produz hormônios que regulam a glicemia (incretinas)
  • Danos ao intestino afetam todo o eixo metabólico
  • Pode prejudicar a absorção de medicamentos para diabetes
  • Tecido adiposo:

  • A gordura corporal é importante para a sensibilidade à insulina
  • Inflamação no tecido adiposo aumenta a resistência insulínica
  • Piora o controle glicêmico mesmo sem dano pancreático direto
  • A tempestade de citocinas

    Em casos graves de COVID-19, o sistema imunológico pode reagir de forma exagerada, liberando uma quantidade enorme de substâncias inflamatórias chamadas citocinas.

    Essa "tempestade de citocinas" causa:

  • Resistência severa à insulina
  • Disfunção de múltiplos órgãos
  • Aumento dramático da glicemia
  • Necessidade de doses muito altas de insulina
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    O registro CoviDiab: documentando a conexão

    Em junho de 2020, 17 cientistas de renome internacional se uniram para criar o CoviDiab Registry, publicando seus achados na prestigiada revista *New England Journal of Medicine*.

    Objetivo do projeto

    Reunir evidências de todo o mundo sobre a interação entre COVID-19 e diabetes, documentando:

  • Casos de diabetes novo após COVID-19
  • Agravamento de diabetes pré-existente
  • Complicações metabólicas graves
  • O que o registro revelou

    Cetoacidose diabética: Condição grave em que o corpo começa a quebrar gordura de forma descontrolada, produzindo cetonas ácidas. Normalmente rara em diabetes tipo 2, apareceu com frequência incomum em pacientes com COVID-19.

    Estado hiperglicêmico hiperosmolar: Outra emergência diabética caracterizada por glicemia extremamente alta (acima de 600 mg/dL) e desidratação severa. Também foi observada com frequência aumentada.

    Doses excepcionais de insulina: Alguns pacientes precisaram de doses de insulina 3 a 4 vezes maiores que o habitual para controlar a glicemia — um sinal claro de resistência insulínica extrema causada pela infecção.

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    Histórias reais: o caso de Arthur Domberg

    Arthur Domberg, empresário de 40 anos, foi diagnosticado com diabetes tipo 2 em 2017. Desde então, mantinha a doença sob controle com medicação oral e dieta equilibrada.

    Quando contraiu COVID-19, tudo mudou:

    Durante a infecção:

  • Manteve a mesma dieta e medicação de sempre
  • A glicose simplesmente não baixava
  • Medições frequentes mostravam valores persistentemente altos
  • Decisão médica:

  • Precisou voltar a usar insulina
  • Não apenas uma, mas três aplicações diárias
  • Mesmo assim, o controle era difícil
  • Após a cura da COVID-19:

  • A necessidade de insulina continuou
  • Seu metabolismo não voltou ao padrão anterior
  • O diabetes que era "leve" se tornou mais severo
  • O caso de Arthur ilustra o que milhares de pacientes experimentaram: o COVID-19 pode causar alterações metabólicas duradouras, mesmo após a recuperação da infecção aguda.

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    Perguntas que a ciência ainda investiga

    O professor Francesco Rubino admite que muitas questões permanecem em aberto:

    Qual tipo de diabetes o vírus causa?

    Ainda não está claro se o diabetes desencadeado pelo COVID-19 é:

  • Diabetes tipo 1 (autoimune)
  • Diabetes tipo 2 (resistência insulínica)
  • Uma forma completamente nova de diabetes
  • Alguns pesquisadores sugerem que pode ser um diabetes híbrido, com características de ambos os tipos.

    A condição é reversível?

    Esta é a pergunta que mais preocupa os pacientes:

    Cenário otimista: Em alguns casos, a glicemia normaliza após a recuperação completa da infecção, especialmente se o dano pancreático foi temporário.

    Cenário preocupante: Em outros casos, o diabetes persiste indefinidamente, sugerindo dano permanente às células produtoras de insulina.

    Realidade: Provavelmente existe um espectro, com alguns pacientes se recuperando totalmente e outros desenvolvendo diabetes crônico.

    COVID longa e diabetes

    Pacientes com "COVID longa" (sintomas persistentes por meses após a infecção) frequentemente relatam problemas metabólicos:

  • Fadiga extrema
  • Dificuldade de controle glicêmico
  • Novos diagnósticos de pré-diabetes ou diabetes
  • A conexão entre COVID longa e alterações metabólicas permanentes ainda está sendo estudada.

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    Recomendações para quem tem diabetes

    A Dra. Ana Carolina Nader, chefe do Departamento de Endocrinologia do Hospital Federal de Servidores do Estado (RJ), oferece orientações importantes:

    Prevenção é fundamental

    Vacinação:

  • Mantenha a vacinação em dia
  • Diabéticos são grupo prioritário
  • As vacinas são seguras e eficazes
  • Medidas gerais:

  • Continue usando máscara em ambientes de risco
  • Mantenha a higiene das mãos
  • Evite aglomerações quando possível
  • Controle rigoroso da glicemia

    O Dr. Rodrigo Moreira enfatiza: "O fator mais crítico é manter a glicose bem controlada. Diabéticos com bom controle glicêmico têm risco menor de complicações".

    Metas glicêmicas:

  • Jejum: 80-130 mg/dL
  • Pós-refeição: abaixo de 180 mg/dL
  • Hemoglobina glicada: abaixo de 7%
  • Monitorização:

  • Meça a glicose regularmente
  • Use sensor de glicose se disponível
  • Monitore tendências, não apenas valores isolados
  • Se você pegar COVID-19

    Comunique seu médico imediatamente:

  • Informe sobre seu diagnóstico de diabetes
  • Pergunte se precisa ajustar medicamentos
  • Fique atento a sinais de descompensação
  • Monitore a glicemia com mais frequência:

  • Meça pelo menos 4 vezes ao dia
  • Fique atento a valores acima de 250 mg/dL persistentes
  • Hidrate-se muito bem
  • Sinais de alerta que exigem atendimento urgente:

  • Glicemia acima de 300 mg/dL que não baixa
  • Náuseas e vômitos
  • Dor abdominal
  • Confusão mental
  • Respiração rápida e profunda
  • Hálito com cheiro de fruta
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    Para quem não tem diabetes: fique atento

    Se você não tem diabetes mas teve COVID-19, vale a pena ficar atento:

    Sinais de alerta pós-COVID

    Sintomas clássicos de diabetes:

  • Sede excessiva
  • Urinar com muita frequência
  • Perda de peso inexplicada
  • Cansaço intenso
  • Visão embaçada
  • Sintomas sutis:

  • Fadiga persistente após recuperação
  • Fome excessiva
  • Feridas que demoram a cicatrizar
  • Infecções recorrentes
  • Exames recomendados

    Se você teve COVID-19, especialmente se foi um caso moderado ou grave, considere fazer:

    3 meses após a recuperação:

  • Glicemia de jejum
  • Hemoglobina glicada (HbA1c)
  • Se valores alterados:

  • Teste de tolerância à glicose (curva glicêmica)
  • Acompanhamento com endocrinologista
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    O papel do GuiaBetes

    Se você está enfrentando dificuldades para controlar a glicemia após COVID-19, ou se recebeu um diagnóstico recente de diabetes, o GuiaBetes pode ajudar.

    Decisão Rápida:

  • Tire dúvidas sobre situações do dia a dia
  • Entenda o que fazer quando a glicose está alta
  • Receba orientações personalizadas
  • Mapa da Glicemia:

  • Registre suas medições
  • Identifique padrões
  • Gere relatórios para seu médico
  • Lembre-se: o diabetes é uma condição conhecida e controlável. Com tratamento adequado, é possível viver uma vida completamente normal.

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    Conclusão: conhecimento é proteção

    A descoberta de que o COVID-19 pode afetar o metabolismo da glicose foi um alerta importante para toda a comunidade médica e para os pacientes.

    O que sabemos:

  • O vírus pode danificar órgãos responsáveis pelo controle glicêmico
  • Diabéticos têm maior risco de COVID-19 grave
  • COVID-19 pode desencadear diabetes em pessoas saudáveis
  • O controle glicêmico adequado reduz riscos
  • O que ainda não sabemos:

  • Se o diabetes pós-COVID é permanente em todos os casos
  • Exatamente qual tipo de diabetes o vírus causa
  • Como identificar quem está em maior risco
  • O que você pode fazer:

  • Manter a vacinação em dia
  • Controlar rigorosamente sua glicemia
  • Ficar atento a sintomas de diabetes pós-infecção
  • Procurar seu médico se notar alterações
  • A pandemia nos ensinou muito sobre a fragilidade do corpo humano, mas também sobre sua capacidade de recuperação. Com informação adequada e cuidados preventivos, é possível minimizar os riscos e viver bem — com ou sem diabetes.

    Cuide-se. Seu corpo agradece.

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    Rúbia Biolo Tourin

    Rúbia Biolo Tourin

    Diabética tipo 1 há mais de 15 anos e criadora do GuiaBetes

    Criadora do GuiaBetes, ajudo pessoas com diabetes a tomar decisões mais seguras sobre sua glicemia no dia a dia.

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